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Consangüinidades
A Criação de Cães da Mesma Linha de Sangue
José Walter
Santos Ferro
Criador e Juiz de Criação e Seleção
da SBCPA
Num programa de criação que tenha por objetivo
o melhoramento da raça, os animais propostos para reprodução
devem ser, na medida do possível, de homozigoticidade
conhecida, isto é, criem de acordo com o padrão,
possua características semelhantes herdadas tanto da
mãe quanto do pai e sejam parentes sanguíneos
relativamente próximos. Em suma, que a fórmula
de criação seja bastante simplificada, de modo
que certos resultados sejam mais ou menos assegurados. A simplificação
da fórmula de criação é alcançada
através de cruzamentos dentro da mesma linha de sangue,
seja através de inbreeding (parentesco muito estreito)
ou do line-breeding (relação de parentesco menos
próxima).
Formando uma linhagem
Para se obter uma linhagem de cães de um mesmo tipo,
com características definidas dentro da raça,
devemos tomar por guia as seguintes recomendações
de Ernst S. Hart, baseadas em trabalhos de Humphrey, Warner,
Kalley e Whitney:
Decida quais os poucos traços essenciais e defeitos intoleráveis.
Entre os essenciais, incluir vigor, fertilidade, tipo e temperamento;
Desenvolva um sistemático planejamento dentro do qual
as qualidades e os defeitos sejam tratados em face do objetivo
de sua criação, com ênfase para os pontos
individuais que necessitam ser aperfeiçoados;
Deve ser prolongado persistentemente o line-breeding dos melhores
animais produzidos, ou seja, aqueles que, pelo teste de progênie,
demonstram poder melhorar o tipo da linha. O inbreeding se faz
quando o animal utilizado é de qualidade excepcional
e sem defeitos marcantes. Quando necessário, poderá
ser feito um outcross breeding (acasalamento de não parentes)
para tentar obter características que não estejam
presentes no estoque inicial.
A importância da prole
Não há dois machos de uma mesma ninhada que produza
uma prole exatamente igual quando cruzados com a mesma fêmea.
Um deles produzirá ninhadas muito superiores às
do outro. Freqüentemente ocorre que o reprodutor de melhor
aparência e que se destaca nas exposições
não é o melhor padreador da sua ninhada. O mesmo
se aplica às fêmeas irmãs de ninhada. Se
existem três fêmeas na mesma ninhada, uma será
bastante superior às suas irmãs como matriz. Como
exemplo, posso citar um caso recente na raça Pastor Alemão,
que é a que eu estou criando desde 1972, como titular
do Canil Hirten der Nacht. Refiro-me às matrizes alemães
Perle e Palme vom Wildsteiger Land, duas irmãs de ninhada.
A primeira foi campeã alemã (Deutsche Siegerin),
mas, não obstante sua maravilhosa estrutura e beleza,
não produziu nenhum descendente excepcional. Já
Palme, que embora tivesse boa anatomia, mas não tinha
a beleza e a correta estrutura da irmã (tinha a cernelha
mais plana e era algo alongada), transformou-se na mais importante
reprodutora pastora alemã do pós-guerra, produzindo
dois excepcionais filhos, Uran vom Wildsteiger Land e Quando
vom Arminius, que foram bicampeões alemães (Deutsche
Sieger). A força de Palme continuou através de
seus descendentes: Uran produziu o campeão alemão
Eiko vom Kirchental e este produziu um neto também campeão
alemão, Ulk vom Arlet, que é pai do campeão
Rikkor vom Bad-Boll (Deutsche Sieger 1998). Já Quando
vom Arminius produziu os campeões alemães Zamb
von der Wienerau e Jeck vom Noricum, este último pai
de Visum vom Arminius (Deutsche Sieger 1996).
Como selecionar a super matriz?
Você não conseguirá, mas apenas tentará
e terão tantos acertos quanto erros. Tudo o que você
pode fazer é selecionar na ninhada a fêmea que
lhe parecer mais robusta de corpo, tenha mais disposição
e atributos e que lhe pareça mais perfeita quanto ao
padrão da raça, e então você a cruza.
Você encontrará defeitos em qualquer cão
da ninhada, com falhas de maior ou menor importância,
de modo que você deve aceitar as falhas menores e tentar
eliminá-las com cruzamentos.
Traços ou atributos essenciais
O objetivo de todo bom criador é elevar a média
ou norma da raça que cria, de modo a obter uma aproximação
cada vez maior do padrão. Alguns traços essenciais
como fertilidade, vigor, longevidade e temperamento jamais deverão
se afastar da norma, pois isto certamente levará a criação
ao desastre. Falta de fertilidade acarreta descontinuidade e
inviabiliza a criação. A falta de vigor normalmente
ocorre em animais de apetite caprichoso e pouca resistência
para vencer as doenças. A longevidade é importante
na medida em que um cão de grande valor na reprodução
precisa ser útil por muito tempo, após sua importância
haver sido reconhecida através da sua progênie.
Finalmente, o temperamento é de vital importância
para a criação, pois representa a soma total de
sua utilidade para o homem nas várias categorias em que
serve, de modo que a ausência deste atributo anularia
todas as demais vantagens conseguidas pelo seu estoque.
A prepotência
Leon Shiver, famoso criador de Pointers e que produziu em seu
canil inúmeros campeões, dentre eles vários
padreadores altamente prepotentes, apresentou num seminário
de clubes cinófilos da Virginia suas recomendações
para se estabelecer um bem sucedido programa de criação.
Ele sugere que se inicie a criação com uma fêmea
campeã, que seja o resultado de pelo menos três
gerações de cães de exposição
produzidos estreitamente, ou seja, com consangüinidades
muito fortes. Então a acasale com o melhor cão
que você possa encontrar e que seja igualmente produzido
por consangüinidade estreita com os mesmos cães
que estão no pedigree da fêmea. Da prole resultante,
selecione os melhores filhotes cuidadosamente. Procure identificar
os defeitos dos seus cães e lute para manter sua criação
distante de tais falhas, porém permaneça dentro
da mesma linha-de-sangue. A razão para se recomendar
o line-breeding é algo complexa, porém um simples
exemplo pode ajudar nossa compreensão. Suponha que você
queira escurecer olhos em sua criação. Esta característica
é determinada por um simples par de genes. Quando um
ou ambos os genes tomam uma forma, olhos escuros são
produzidos. Se, todavia, nenhum gene toma esta forma, olhos
claros são produzidos. Os olhos escuros são dominantes,
mas se você cruzou dois cães de olhos escuros,
você ainda pode obter alguns cães de olhos claros.
Supondo que ambos os pais tivessem somente um gene dominante,
então deveríamos esperar obter em média
um quarto da ninhada com olhos claros, metade com olhos escuros,
mas transmitindo um gene de olho claro, e um quarto com olhos
escuros, mas carregando dois genes de olho também escuro.
Este último grupo é particularmente útil
porque mesmo se eles forem produzidos por casais de olhos claros,
todos os filhotes da ninhada terão olhos escuros. Um
cão nestas condições é dito ser
prepotentes para olhos escuros. A prepotência é
altamente desejável porque permite ao criador saber que
uma determinada prole com certeza terá uma certa característica.
À primeira vista parece ser fácil desenvolver
prepotência em uma criação, afinal tudo
que você tem a fazer é encontrar aqueles animais
portadores de dois genes de olhos escuros. Mas, infelizmente,
isto não é uma tarefa fácil. Primeiramente,
três quartos dos filhotes do exemplo anterior têm
olhos escuros e não há nenhuma maneira de determinarmos
qual deles será prepotente para essa característica,
sem cruzá-los com parceiros de olhos claros (dois ou
mais cruzamentos para cada um podem ser necessários).
Em segundo lugar, muitas características desejadas são
o resultado de mais do que um par de genes para essa herança,
o que torna a coisa menos precisa do que em nosso exemplo. Em
terceiro lugar, você certamente estará selecionando
os animais por mais de uma característica, e selecionar
- por exemplo - por dez características é extremamente
difícil, porque nesse caso teríamos acima de mil
combinações genéticas possíveis
de ocorrer, mesmo se cada característica fosse determinado
por um único par de genes, o que é improvável.
Por isso é que afirmamos que o método mais rápido
de se obter prepotência para todas as características
que nos interessam é praticando line-breeding e uma seleção
cuidadosa. Se você tem três gerações
de olhos escuros atrás de um cão, e se seus irmãos
de ninhada também têm olhos escuros, as chances
são grandes de que ele venha a ser prepotente para olhos
escuros. Se ele e todos os parentes têm todas as características
que você deseja, as chances são boas de que o cão
de fato seja prepotente para todas elas. Esta é a razão
pela qual devemos permanecer dentro da mesma linha.
Fundamentos
Para entendermos melhor o exemplo acima, precisamos conhecer
alguns fundamentos da genética - as leis de transmissão
dos caracteres hereditários e as propriedades das partículas
que asseguram essa transmissão, denominadas de cromossomos.
Os cromossomos ocorrem aos pares no interior do núcleo
das células. As quantidades de pares de cromossomos variam
de acordo com cada espécie. Estima-se que o núcleo
de uma célula do cão contenha 39 pares de cromossomos.
A única exceção são as células
reprodutoras (espermatozóide e óvulo) que contêm
apenas 39 unidades e não 39 pares, como as demais células.
Com a fusão das duas células reprodutoras (fecundação)
reconstituem-se na célula-ovo os 39 pares de cromossomos
necessários à formação de um novo
indivíduo. O reagrupamento dos cromossomos em seus pares
a cada nova geração é o que faz a história
da genética, e cada par de cromossomos determina tantas
características quanto sejam os genes que contêm,
entendendo-se por gene a menor unidade indivisível. Um
cão tira 50% dos seus cromossomos dos pais, 25% dos avós,
12,5% dos bisavós e assim por diante. Dos 78 cromossomos,
a metade é proveniente do pai; todavia isto não
significa que o pai tenha necessariamente fornecido um cromossomo
em cada par. Pode haver pares que não provêm do
pai, mas para cada par que dele não provem existe um
outro cujos dois membros provêm dele. Se os membros de
tal par forem idênticos são chamados de homozigotos
(palavra grega que significa semelhantes). Se, no entanto, forem
desiguais são chamados de heterozigotos.
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