José Walter Santos
Ferro
Criador e Juiz de Criação e Seleção
da SBCPA
1. Viajando no bonde da história
A história do Pastor Alemão
em nosso Estado vem da época do bonde sobre trilhos
de ferro, mas o seu début oficial teve início
em 25 de setembro de 1965 com a criação da
SCCPAG – Sociedade dos Criadores de Cães Pastores
Alemães da Guanabara, filiada ao sistema SPCPA/CBKC/FCI
e que tinha sua sede à Rua das Marrecas, 36, no Passeio.
Em 11 de Novembro de 1966 a SCCPAG passou a ser considerada
de utilidade pública pela Lei no. 1121. Quase ao
mesmo tempo foi criada a SPA, com sede à Rua Debret,
23, Centro, e que era filiada à Federação
Cinológica Brasileira, uma entidade nacional fora
do sistema CBKC, mas que era respaldada por um registro
no Ministério da Agricultura.
Grande mentor da criação
da SCCPAG foi Gerson Fraga. Entre os sócios fundadores
podemos citar Hélio Nogueira de Sá, Aleixo
Carvalho das Flores, Tio Ninito (do Moinho Fluminense),
Gerhard, Paulo Darcy de Almeida, Adalberto Pereira Alonso,
Giorgio e Margarita Soler Campiglia, Josemar Barbosa, Vera
Lúcia de Castro Barbosa e José Carlos Guimarães.
Já a SPA, contou com nomes como Mário da Costa
Tavares, Rolando Luiz Álvares da Cruz, Maurício
de Mello Borges, Dirceu Franklin dos Santos e Mário
Pin Galvão, entre outros.
Em 1971 adquiri o meu primeiro pastor
alemão com pedigree e, no ano seguinte, fundei o
Canil Hirten der Nacht e me associei à SPA, então
presidida por Rolando Luiz Álvares da Cruz, titular
do Canil Cruzeiro do Sul, que foi fundado pelo seu pai,
Prof. Everardo Cruz, nos idos de 1922, ou seja, pouco mais
de 20 anos após a criação oficial da
raça pastor alemão na Alemanha. Como se vê,
a raça pastor alemão não é tão
velha assim, mas a história do pastoreirismo fluminense
vem de muito longe, da época do bonde, sim senhor.
No início dos anos 70 já
era forte a criação de pastores alemães
no Brasil, principalmente na região sudeste. Havia,
no entanto, a necessidade da criação de uma
entidade mater nacional que pudesse congregar as sociedades
estaduais já existentes, criar um conselho de juizes
e instituir normas e diretrizes.
Assim, por iniciativa e liderança de Miguel Bove
Netto foi fundada em São Paulo a SBCPA, carinhosamente
apelidada de “Brasileira” e cujo 1o. Estatuto
foi redigido a quatro mãos pelo próprio Bove
e Jorge Andrade de Carvalho, outro ícone do pastoreirismo
nacional. A 1a. Diretoria foi assim constituída:Presidente:
Miguel Bove Netto; Vice Pres.: Marcos Vasconcelos Gomes
(pai da Vitória, de Belo Horizonte); Diretor Secret.:
Alexandre Stamburowsky; Dir. Tesoureiro: Armando Wilson
Scuracchio; Diretor Jurídico: Luiz Leite Carvalhães;
Vogal: Alberto Costa
Em 29 de setembro de 1973 foi criado
o Conselho de Juizes da SBCPA, formado pelos seguintes conselheiros:
Alexandre Stamburowsky, Arlindo Dubeux, Clodomiro José
Paschoal, E. Waldemar Rathsan, Euler Brina, Fritz Caspari,
Hélio Nogueira de Sá, Jorge Carvalho, Julio
Brisolla, Kani-ichi Morozumi, Luiz Leite Carvalhães,
Bove Netto, Paulo Darcy de Almeida, Paulo Pires Arteiro,
Pedro Wilson Viana, Roberto Taliberti, Romildo Moreira,
Thomas Scott e Wandenkolk Tinoco (juizes paulistas, cariocas,
mineiros e pernambucanos).
Em março de 1980 foi realizada em São Paulo
a 1a. SNIP (SEMANA NACIONAL DA INTEGRAÇÃO
PASTOREIRA), com os campeonatos brasileiros de estrutura
e adestramento.
2. A Criação
da SPARJ
A fusão do Estado do Rio de
Janeiro com o Estado da Guanabara (ex-Distrito Federal)
criou o clima propício para novas fusões dentro
do novo Estado. Assim, em 05 de Janeiro de 1975, sob a presidência
de Hélio Nogueira de Sá, as duas entidades
pastoreiras, SCCPAG e SPA, se fundiram e formaram a SPARJ,
que teve como seu primeiro presidente eleito o Cel. Rubens
Torres Carrilho. Dos pastoreiros daquela época recordo-me
dos nomes de Rudy Roenick, Domingos Setta, Renato Braga
e sua filha Cristina (Binha), Armando Martins, José
Portela, Agostinho Gomes Pereira, Dr.Jorge Haggendorn Lobo,
Antonio Lobo, Adelino Pereira, Hélio Correia da Silva,
Carlos Gonçalves, Isa Omena de Freitas, Hilmar Macedo,
o casal Cristina e Roveredo Fagundes, Júlio Secco,
Evandro Ballesteros, Carlos Bueno, Roberto Cury, Fernando
Ennes, Sebastião Pereira (handler e treinador), Elster
Fritz, Tex Correia da Silva (fundador da Revista Pedigree),
João Soares, Delfim Silva Netto, Clarisse Paes, Dona
Clarinda, Sebastião Paiva, Jorge Celso de Souza,
Cláudio Jessoron, Mauro Bayard, Circe Gomes Amado,
Almir Rangel, José Erçal, Bruno Tausz, Roberto
Camerino da Ghia, Wilbert, Daniel Lourenço Filho,
Arthur Carneiro, Eduardo da Silva Branco (o Dudu Português),
Fernando Carneiro, Jorge Vieira Baltazar, José Carlos
(o Dundun), Wolfgang Wick e seu cunhado José (o Zé
de Caxias), Henrique Cabral, Diego Placenti, Paulo César
Coelho Netto, Vladimir Carvalho, Oswaldo Carnut, Dona Esmeralda,
Erasmo Pedro do Rego, Adelino Duarte Martins Filho e Venâncio
Rodriguez (o Espanhol), os dois últimos, respectivamente,
criador e proprietário do extraordinário trotador
Dankor da Pena Verde. Em Campos, no norte do estado, surgia
a liderança de Noelcides Crespo Guimarães
(o saudoso Malagueta). A lista seria muito grande e certamente
muitos nomes igualmente notáveis estou involuntariamente
omitindo, mas vou parar por aqui, pois quanto mais nomes
busco na minha memória mais aumenta a minha convicção
de imperdoáveis esquecimentos. Muitos destes companheiros
já faleceram. Outros estão vivos mas afastados
do meio pastoreiro. Aleixo Carvalho das Flores, excepcional
adestrador e proprietário do Canil das Belas Flores,
casou-se novamente e é lojista em Cachoeiras de Macacu-RJ.
Soube que Diego Placenti (Canil Aretuza e depois Haus Kegler)
é fruticultor em Guapimirim-RJ e que Agostinho Pereira
(Canil Jagmael) está curtindo a sua aposentadoria
em Campos dos Goitacazes. Henrique Cabral (Canil Casa dos
Lordes) retornou para suas origens, o Rio Grande do Sul.
José Graça Aranha (Canil Haus Flamboyant)
acaba de retornar para a Suíça. Outros estão
ainda na cinofilia fluminense, mas criando com sucesso outras
raças, para as quais levaram muita experiência
e toda a bagagem pastoreira. É o caso de Bruno Tausz,
que hoje é criador de Rottweilers e autor de diversos
livros sobre adestramento e etologia; de Josemar Barbosa
Lima, do Canil Stockhausen, hoje um campeão nacional
com Westies e Scottishes, e de Domingos Setta, destacado
criador de Schnauzer e influente dirigente cinófilo,
pois é presidente do BKC e também diretor
do Conselho Cinotécnico do CBKC. Estes três
ex-pastoreiros, meus amigos há mais de 30 anos –
Domingos, Bruno e Josemar - são hoje competentes
e prestigiados juizes da CBKC.
3. O Plantel Fluminense da
época
A nossa criação da
época tinha como base cães importados da Alemanha,
como Jurgen von Aichtal, Bernd Hilligen Herwet (importados
por Júlio Brisolla), Bär von Farrenberg, Barry
Wandermüller, Quinn Steckenborn e Janko von Dreschhalle,
Ditto Sandsteinbruck, Nick von Cellerland (irmão
inteiro do VA Marko) e Arko von Bergheimer Först (Sieger
Junior na Alemanha e adquirido nos EUA pelo nosso amigo
Ademar Nunes, do Canil Haus Ademar, de Limeira-SP). Estas
importações deram uma grande contribuição
para a melhoria do plantel carioca, que era na sua maioria
constituído de filhos de Cosme da Serra do Itapeti
e de Marco von Blumenhein, que eram bons cães, mas
de um tipo mais antigo.
Um pouco depois foram importados, Jago von Baiertalerstrasse
e o VA Frei Holtkamper See (ambos filhos de Canto Wienerau
e bisavós do extraordinário VA e raçador
alemão Fedor von Arminius, uma das linhas-de-sangue
mais importantes da atualidade), além do V1 Ulf von
Asterplatz (de Júlio Secco) e Veus von Unterhain
(filho dos VA´s Quanto Wienerau e Cely Wienerau).
Veus foi importado por Vera Lúcia Barbosa, que logo
depois transferiu o Canil Dois Pinheiros, do Rio de Janeiro
para São Paulo. Nessa época já se destacavam
em São Paulo algumas excelentes reprodutoras nacionais,
dentre elas Alfa do Capemar e Ava de Nordval. Do cruzamento
de Ava com Jürgen von Aichtal nasceu a excelente ninhada
“J” do Canil Nordval, de Ângelo Agostini.
Desta ninhada vieram para o Rio de Janeiro Jane e Judy de
Nordval. Jane foi cruzada com Arrow da Casa dos Arcos e
deu o excelente Apache do Sítio Novo, do José
Erçal. A irmã Judy, cruzada com Bernd Hilligen
Herwet, deu o excelente Arph do Totem, de Mauro Bayard.
Ângelo Agostini repetiu o
cruzamento de Ava de Nordval com Jürgen dando a ninhada
“P” de Nordval, e a maior parte da ninhada foi
adquirida por expositores do Rio de Janeiro, no rastro do
sucesso da ninhada anterior. Vieram para o Rio de Janeiro
Patsy, Prisco e Peter de Nordval, que fizeram menos sucesso
do que os irmãos da ninhada anterior. Patsy foi cruzada
com Grimm Kinderland, excelente reprodutor de criação
de Hélio Nogueira e propriedade de Josemar Barbosa,
e deu o exímio trotador Dankor da Pena Verde. Muitos
outros cães Nordval vieram para o Rio, como os irmãos
Zent e Zarra de Nordval. Zarra, de propriedade de Rudy Roenick
e de Domingos Setta, foi uma excepcional campeã,
de exuberante movimentação e que, juntamente
com Grimm von Kinderland, foram Best-in-Show na CBKC. Aliás,
além de Zarra e Grimm, poucos pastores alemães
foram Best-in-Show (vencedor de todas as raças) na
CBKC. Creio mesmo que, antes deles, somente Lobo das Agulhas
Negras, de propriedade do veterano juiz paulista, Dr. Miguel
Bove Netto, e, mais recentemente, esta galeria passou a
contar também com Raíssa do Vale do Paraíba,
que no início da década de 90, em pleno Riocentro,
conquistou o título de campeã das Américas
e do Caribe.
Zarra, não foi apenas uma
grande campeã nas pistas, mas também uma extraordinária
reprodutora. Com Veus von Unterhain (um filho dos ausleses
Quanto Wienerau e Cely Wienerau) Zarra produziu a famosa
ninhada “A” do Alferes, com destaque para Aleluia
e Aloa do Alferes, que venceram inúmeras exposições.
Em outra cruza com Veus, seu melhor parceiro, produziu a
também campeã Eta do Alferes.
Pouco depois Carlos Bueno trazia da Alemanha para o Canil
Kamedon, no Rio, o VA Grimm vom Lehmbachtal, e os excelentes
Quero Wienerau, Pelee Elbbachtal, Bronco Hirtgarten, Wum
Wildsteiger Land (irmão inteiro do bi-sieger alemão
e extraordinário reprodutor Uran Wildsteiger Land)
e Lasso von Grauen entre outros, além de excelentes
matrizes como a VA Orna von Haus Niermann, Elwira Elbbachtal
(mãe de Pelee), Connie von Hasenborn, Vina Larchenhain
entre outras. Aliás, devo ressaltar, sem medo de
errar, que na história do pastoreirismo nacional
ninguém importou da pátria-mãe do pastor
alemão tantos cães quanto Carlos Bueno, do
Canil Kamedon. E afirmo mais: importou quantidade e qualidade
num espaço de tempo relativamente curto. Numa mesma
época Bueno trouxe para o Rio os VA´s (excelentes
plus alemães) Grimm vom Lembachtal e Orna von Haus
Niermann, além de outras fêmeas de excelente
qualidade. Muitas destas matrizes já vieram cobertas
por destacados VA´s alemães, como foi o caso
de Vina von Larchenhain, uma meia-irmã de Palme Wildsteiger-Land,
que veio coberta por um filho desta, o extraordinário
bi-sieger alemão, Uran Wildsteiger-Land. Da cruza
de Grimm Lehmbachtal com Orna Haus Niermann, ambos VA´s,
nasceu Sam do Kamedon, de sucesso nas pistas, mas que não
teve êxito na reprodução porque produziu
inúmeros filhos monórquidos ou criptórquidos
(uma falha congênita que se caracteriza pela ausência
de um ou dois testículos na bolsa escrotal). Aliás,
este problema era transmitido recessivamente pelo VA Grimm
e praticamente por todos os seus melhores filhos, dentre
eles Amon da Pedra Dourada, que me pertencia, Aguaí
da Casa do Júnior, Anuar do Oásis da Marquesa,
Hirgo do Kamedon e o próprio Sam.

Exposição na Escola de Educação
Física do Exército, na Urca, com Walter Ferro
recebendo do juiz alemão Hermann Jochmann os troféus
conquistados por seu cão Amon da Pedra Dourada (2o.
melhor da exposição e melhor exemplar carioca).
Amon era filho do VA Grimm com Amazonas do Arco do Triunfo,
uma filha do VA Frei Holtkamper See, que também esteve
no Brasil.
A cruza de Vina Larchenhain com Uran,
que causou grande expectativa na época, deu Yello,
Yessa e Yambo do Kamedon, animais de grande tipicidade mas
que foram reprovados nos exames radiográficos das articulações
coxo-femurais. Da cruza de Connie Hasenborn com o VA Dax Koppenkamp
nasceu a excelente cadela Érika do Kamedon, adquirida
por Fernando Carneiro. Érika cruzada com Bronco Hirtgarten
deu Hank e Hanna do Sanfer, belíssimos animais com
excelentes coxo-femurais. Hank foi campeão junior latino-americano
em São Paulo, numa disputa difícil com Fant
von der Tefor, um belo cão argentino filho do vice-sieger
alemão Tell von Grossen Sand (irmão da bi-siegerin
alemã Tina e pai do bi-sieger alemão Fanto von
Hirschel). Infelizmente Hank do Sanfer e sua irmã Hanna,
belos animais consangüíneos em Mutz Pelztierfarm,
devido a deficiências de temperamento, não conseguiram
ser selecionados.
Em outro evento, Luar dos Amores apresentada por
Maneco, 1o. lugar com juiz alemão Walter Martin,
do famoso Canil Wienerau. Logo atrás, em 2o. lugar,
está Yessa do Kamedon com o famoso handler Silva.
Luar, uma filha de Amon da Pedra Dourada, dividia com sua
irmã Lua as vitórias nas exposições.
Luar pertencia a Claudio Hamaty e Lua a Erasmo Rego,.
Yessa era filha do sieger alemão Uran Wildsteiger
Land com Vina Larchenhain.
Na mesma época, Rolando Cruz,
do Canil Cruzeiro do Sul, importou da Alemanha Quino von
Trikenbrunnen e Ingo aus Agrigento. Este último era
um filho de Veit von Haus Köder (da linha Canto Wienerau),
que tinha pelagem bem escura, boas coxo-femurais e excelente
temperamento. Já Quino, um cão da linha Quanto
Wienerau, tinha melhor anatomia do que Ingo, mas era solto
nos ligamentos em geral e cruzava os posteriores. O melhor
filho de Quino foi Tom do Cruzeiro do Sul, que teve a sua
seleção cancelada após uma revisão
do laudo radiográfico das suas coxo-femurais..
O Brasil vivia então um dos
piores momentos da sua história republicana, em plena
ditadura militar, com supressão de direitos, atos
institucionais, movimentos guerrilheiros, seqüestros
de autoridades e, principalmente, muita repressão
e censura em todos os setores da sociedade brasileira. Mas,
sem dúvida, este foi um excelente período
para a criação carioca, com muito dinheiro
investido em importações, principalmente pelo
Canil Kamedon, que, na mesma época, trouxe para o
Rio de Janeiro os ausleses alemães (ou excelentes-plus)
Grimm Lehmbachtal e Orna Haus Niermann, um investimento
impraticável nos bicudos dias atuais. Grimm, aliás,
foi para mim o cão pastor alemão mais bonito
entre todos os que vieram para o Brasil. Mas será
que os resultados estiveram à altura dos investimentos
feitos? Teria faltado o que? Mais organização
e melhor assessoramento técnico? Mais coesão,
entrosamento e participação dos criadores?
Na foto o auslese Grimm Lehmbachtal, com o juiz
gaúcho Ponzo Cruz ao lado de Carlos Bueno, em exposição
na Quinta da Boavista, no Rio de Janeiro. Sentado na barraca
e de boné branco está Henrique Cabral.
4. Exposições,
Eventos e Comemorações
A Guerra dos Seis Dias (conflito
árabe-israelense) elevou bastante o preço
do barril do petróleo e, para conter o consumo, o
governo brasileiro aumentou bastante o preço dos
combustíveis e fechou os postos aos domingos. Em
conseqüência as exposições, que
eram sempre aos domingos, passaram a ser realizadas aos
sábados. O sábado virou moda e o hábito
ficou, mesmo depois das restrições ao consumo.
Na noite anterior às exposições sempre
havia um concorrido jantar de confraternização
com a presença do juiz convidado. O convívio
social era intenso nestas oportunidades e também
nos dias de exposição,com participação
dos expositores e seus familiares. Havia um ambiente festivo
e de congraçamento nas exposições,
que eram muito concorridas, com muitos cães em pista
e um público numeroso. Os locais dos eventos eram
os melhores possíveis, tanto do ponto de vista de
conforto, infra-estrutura e atração de público:
Quinta da Boa Vista, estádios do Flamengo, do Botafogo,
do Fluminense e da Portuguesa, além do Itanhangá,
Retiro dos Artistas, Quartel dos Marinheiros, Escola de
Educação Física do Exército,
Riocentro e, pasmem! Até mesmo o Parque do Aterro
do Flamengo.
Em 1976 o Riocentro foi palco do
3o. Campeonato Brasileiro de Criação, que
atraiu um público numeroso e foi notícia de
primeira página na edição de domingo
do Jornal do Brasil, na época o número um
do país, com direito a foto panorâmica e manchetes
expressivas como campeonato reúne 200 cães
e mais de duas mil pessoas acompanharam as apresentações
dos cães concorrentes do Campeonato Brasileiro (vide
foto acima).
Só para que se tenha uma
idéia da grandiosidade da festa, basta citar que,
nos dois dias da exposição, 24 filhotes foram
sorteados entre o público presente (sorteio de 2
filhotes no intervalo de cada uma das 12 categorias). Abertura
solene com a presença de autoridades e sob os acordes
de uma banda militar. Cães da Polícia Paulista
fizeram demonstração de adestramento. Milhares
de cafezinhos foram distribuídos gratuitamente por
uma empresa empacotadora. Aviões da FAB sobrevoaram
o Riocentro e pára-quedistas militares pousaram no
meio da pista. O jantar de confraternização
para cerca de 300 pastoreiros foi no chiquérrimo
Itanhangá Golf Club. As arquibancadas (as mesmas
do antigo Sambódromo da Av. Presidente Vargas) foram
cedidas gratuitamente pela RIOTUR.
Para o sucesso do 3o. Campeonato
Brasileiro tudo foi pensado e bem planejado, com uma antecedência
de seis meses, por uma comissão criada pelo então
Presidente da SPARJ, Mário Tavares, tendo Rolando
Cruz como coordenador e nas demais funções
o próprio Mario Tavares, José Portella, Hilmar
Macedo, Henrique Cabral e eu, Walter Ferro, que fiquei responsável
por toda a parte administrativa: redigia as circulares aos
sócios e filiadas, e ofícios às autoridades
civis e militares, aos potenciais patrocinadores e à
imprensa em geral. O grupo de trabalho se reunia com freqüência
e toda a correspondência era feita em papel timbrado
contendo uma logomarca exclusiva, criada especialmente para
o 3o. Campeonato Brasileiro.
Naquela época todos os eventos
pastoreiros eram bastante difundidos e contava com um público
alegre e numeroso. Uma exposição regional
colocava pelo menos 130 cães e todas as classes eram
bem concorridas. As circulares e boletins técnicos
eram emitidos regularmente. Tudo era impresso nos velhos
e rústicos mimeógrafos. As copiadoras xerox
estavam engatinhando e a computação eletrônica
era ainda uma ficção.
Hoje em dia, infelizmente, mesmo
com a popularização dos microcomputadores,
não há mais circulares e boletins técnicos
e as exposições contam com uma média
de trinta cães e não mais do que uma dúzia
de abnegados expositores. O público praticamente
é formado pelos poucos proprietários dos cães
e por dois ou três pastoreiros da velha guarda, que
não estão mais criando, e que ali comparecem
para rever os velhos companheiros e não perder por
completo o contato com os cães. Há vários
anos as exposições deixaram de ser realizadas
no município do Rio de Janeiro e foram para Niterói,
fugindo-se da rigidez da fiscalização municipal,
cujas senhoras do Serviço de Zoonoses fazem muitas
exigências para uma exposição de cães
com pedigree, todos bem alimentados e certamente vacinados
e vermifugados. A presença dessas zelosas funcionárias
municipais fiscalizando as exposições de cães
saudáveis, representa a nosso ver um contra-senso
e um desperdício de esforços e do dinheiro
público, quando se sabe que as ruas do Rio de Janeiro
andam cheias de cães e gatos vadios, comendo sobras
das lixeiras e espalhando doenças sem qualquer controle
das autoridades municipais. Parece que tudo passou a conspirar
contra a disseminação da criação
pastoreira em nosso estado, mas precisamos unir forças
e buscar uma reação efetiva, à altura
das nossas melhores tradições. Restabelecer
os canais de comunicação com os criadores
e abrir discussão sobre as questões mais urgentes,
como ampliar a base social, aumentar o número de
criadores efetivos, buscar locais adequados para a realização
dos eventos, de reunião dos criadores e de treinamento
dos cães. Restabelecer as caravanas (ônibus)
para as grandes exposições fora do estado.
Voltar a divulgar os resultados das exposições
e as pontuações parciais e finais do Torneio
Estadual, distinguindo os vencedores. Promover círculos
de palestras e cursos de preparação de treinadores
e figurantes.
Enfim, nós, os pastoreiros
cariocas, precisamos nos unir em pensamentos, palavras e
obras para podermos superar as atuais dificuldades e voltar
a crescer.
QUANDO SE TEM UMA META APAIXONANTE,
O QUE ERA OBSTÁCULO PASSA A SER ETAPA.
Teresópolis, Agosto de 2004.
José Walter Santos Ferro
Criador e Juiz de Criação e Seleção
da SBCPA
Obs: Este artigo pode ser reproduzido
total ou parcialmente desde que citados o autor e a fonte
(Cód. Penal, art. 184: Lei 9610/98 art. 5o., VII
e NBR 6023, da ABNT).